Sou uma das autoras do livro ¨Soberania digital: desafios do presente para um Brasil do futuro¨

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Quem escreve um livro cria um castelo, quem o lê mora nele.

– Monteiro Lobato

E eu que já morei em muitos livros que li,apresento a vocês o primeiro que eu ajudei a construir, em conjunto com muitos outros autores fantásticos. Um prazer imenso, uma alegria que não cabe em mim.

O livro Soberania digital apresenta desafios do presente para um Brasil do futuro. O Brasil já viveu esse ciclo. Exportou pau-brasil, ouro, borracha, café; e teve as riquezas sequestradas e a dependência do norte global. Este livro mostra, a partir de uma leitura crítica e aprofundada sobre o Século XXI, que esse ciclo não acabou. Ele só mudou de forma. A matéria-prima agora é quase invisível: dados, comportamentos, padrões de consumo, fluxos de energia e infraestrutura digital.

Organizado por Orlando Silva, Renata Mielli e Ergon Cugler, o livro reúne textos de dezenas de autoridades e especialistas que mapeiam o “colonialismo de dados”: o arranjo em que o Sul Global alimenta a economia digital, enquanto riqueza, poder e capacidade de decisão se acumulam em outros países e em poucas empresas. O que antes saia em navios, hoje circula por cabos submarinos, servidores, nuvens corporativas e plataformas que capturam informação, atenção e dinheiro. A tese central não é pessimista nem animadora: é urgente. Ainda há espaço para escolher caminhos diferentes, mas isso não vai acontecer se estivermos isolados, nem pela boa vontade das Big Techs.

Este livro existe para que essas escolhas sejam feitas com consciência política, responsabilidade de classe e visão sobre o conflito em curso.

Tive a honra de contribuir para o livro através de um artigo escrito a quatro mãos com a investigadora Julie Richard. No nosso capítulo, mergulhamos numa discussão urgente e complexa: a misoginia em rede. Analisamos como as dinâmicas de poder no espaço digital perpetuam a violência de género e de que forma a construção da soberania tecnológica e das políticas de governança da internet devem, obrigatoriamente, passar pela garantia de espaços digitais seguros e democráticos para as mulheres.

O nosso objetivo com este texto é mostrar que a violência de gênero nas plataformas digitais não é um problema isolado de comportamento, mas sim uma ferramenta de silenciamento político que afeta diretamente a democracia e a liberdade de expressão das mulheres. Discutir o futuro tecnológico do país exige, necessariamente, enfrentar o machismo algorítmico e pensar em infraestruturas que promovam a justiça social. Agradeço imensamente à Julie pela parceria intelectual tão rica e potente neste capítulo, e aos organizadores da coletânea por abrirem espaço para um debate tão urgente e indispensável para os dias de hoje.